RPPN Toca da Paca (clique aqui)

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Um oásis de preservação dentro de um mar de monocultura

Conheça a incrível história da Toca da Paca: a propriedade da zootecnista Daniela de Azevedo Souza que protege 187,3 hectares no meio de um canavial

É muito difícil imaginar que existe uma área preservada na cidade de Guatapará – interior de São Paulo. Explica-se: a região que fica próxima a cidade de Ribeirão Preto é predominantemente agrária. É possível andar por muitos quilômetros e ver apenas plantação de cana-de-açúcar.

Quem chega de carro até a propriedade não imagina que vai encontrar uma área preservada como a da Toca da Paca. Quem conhece, a mentalidade desenvolvimentista das pessoas que moram e trabalham naquela região tem ainda mais dificuldade para entender como foi possível criar uma RPPN naquele local, numa época em que não existia nenhuma Reserva Privada que pudesse servir como inspiração para os proprietários.

Vamos voltar no tempo para tentar entender como tudo isso foi possível. A Fazenda Boa Vista está com os atuais proprietários desde 1999. A propriedade tem 314,58 hectares divididos entre pecuária, agricultura e florestas. Naquela época, a RPPN existia apenas como projeto. Qual era o objetivo dos proprietários? Desenvolver um modelo de negócio ecologicamente sustentável e economicamente viável. Ou seja, muito antes de receber a alcunha de RPPN no ano de 2008, a ideia da zootecnista Daniela de Azevedo Souza e seu pai era preservar o local que possui mais de 50% de vegetação nativa.

Foi então que veio a ideia de criar uma RPPN dentro da Fazenda Boa Vista para proteger esta área. O título de não foi obtido facilmente. Entre os percalços, os proprietários tiveram que enfrentar a lentidão do poder público e a falta de informações. “Eu consegui porque fui persistente em dar uma função para a mata e contei com a ajuda de pessoas apaixonadas e românticas, porque todo conservadorista é um pouco romântico”, lembra Daniela de Azevedo. Ela recorda que deu entrada no pedido de reconhecimento de RPPN em 2004, mas só obteve o título em 2008.

Hoje, aos 39 anos, Daniela continua responsável por proteger e manter financeiramente a área de 187,3 hectares de mata preservada. Mas construir uma gestão competente financeiramente sem degradar o meio ambiente não é tarefa fácil, porque as responsabilidades ainda não são compartilhadas de forma justa com o poder público.

Oásis em meio ao canavial

De um lado fica a mata nativa e do outro o canavial. A RPPN Toca da Paca é literalmente cercada pela plantação de cana-de-açúcar que faz parte da própria Fazenda Boa Vista e dos proprietários vizinhos. Formada por uma intensa mata paludosa com continuação em uma grande várzea muito próxima ao Rio Mogi-Guaçu. O fragmento protege uma porção de espécies altamente ameaçadas de extinção como Lobo Guará, Onça Parda, Jaguatirica, Cachorro Vinagre, Tamanduá Mirim, Tamanduá Bandeira, Veado Mateiro, Veado Catingueiro, entre outras catalogadas e fotografadas em levantamentos internos. Basta entrar na seção de fotos da propriedade que será possível encontrar um grande número de espécies.

“Eu me sinto num oásis. Nada, nem ninguém me tira o orgulho que sinto de proteger os animais que vivem aqui”, afirma Daniela. A riqueza do lugar pode ser observada em números. De acordo com o biólogo responsável pela RPPN, Erlom Silva Honorato são aproximadamente 100 espécies de aves e 22 mamíferos, além dos grupos vertebrados que precisam ser melhor estudados – principalmente os peixes, porque uma parte da UC margeia o Rio Mogi-Guaçu.

Sim, temos pacas!

Experiente, Erlom sempre foi cético com relação a criação de uma RPPN na região de Ribeirão Preto. Porém, ele foi surpreendido pela riqueza da biodiverisdade local na medida que foi estudando a propriedade. Ele cita um fato curioso quando provocado a falar sobre o assunto. Segundo Erlom, as pacas nunca haviam sido avistadas na Toca da Paca. “Depois de estudar algumas pegadas de animais, vi coisas diferentes”, afirma.  Ao levar as fotos das pegadas que ele encontrou para especialistas da região descobriu-se que aquelas pegadas eram mesmo de pacas. O detalhe é que – até aquele momento – não sabiam da existência da espécie na região. O nome sempre foi uma brincadeira divertida, fantasiosa e quase folclórica por parte dos proprietários. Agora, graças aos estudos de Erlom, é possível dizer que, sim, existem pacas na Toca da Paca.

O biólogo também conta que já foram identificadas perto de 90 espécies arbóreas arbustivas pertencentes a 30 famílias botânicas. Ele cita o exemplo da sandra d’água que auxilia no desenvolvimento e regeneração da floresta paludosa.

Flagra na Jaguatirica!

Graças a esta rica biodiversidade, a RPPN Toca da Paca é uma fonte inesgotável para a realização de pesquisas acadêmicas. Na tentativa de melhorar o conhecimento e compor o retrato dos animais que vivem na reserva,  a proprietária decidiu instalar câmeras fotográficas no meio da mata.

A maior façanha das armadilhas foi registrar em movimento uma jaguatirica camuflada na floresta. “Sem o recurso seria impossível saber da existência dessas espécies aqui, porque a nossa mata é de brejo”, diz Daniela. O tipo de terreno é conhecido por sua consistência amolecida e por sua periculosidade para exploração, por esse motivo a reserva não possui trilhas.

Pagamento por Serviços Ambientais – PSA

A RPPN Toca da Paca foi uma das onze contempladas pelo 1° Edital do Crédito Ambiental Paulista que ofereceu aos proprietários de RPPN um Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). O valor a ser pago para a execução de todas as intervenções na propriedade é de R$ 200.311,16 divididos em cinco anos.

O plano de ação da Toca da Paca garante o fortalecimento de uma série de ações como o reforço de aceiros, distribuição de placas sinalizadoras pela propriedade alertando contra a entrada de terceiros, controle e erradicação das espécies exóticas invasoras, recuperação de áreas degradadas, isolamento e cercamento da reserva, vigilância e formação de uma equipe treinada para combate de incêndios.

Porém, a proprietária sinaliza que todas as ações já vinham sendo feitas. “O PSA pede que a gente tenha um plano de ação protetivo, mas todos os meus esforços sempre foram planejados para melhoria da conservação local.”

Como o documento pede uma intervenção para cada problema detectado, uma metodologia foi criada para atender todas as necessidades. Na parte de vigilância, para conter os problemas com invasões de pessoas armadas foram programadas duas rondas semanais nos finais de semana, onde funcionários capacitados terão a missão de percorrer os limites da RPPN para verificar sinais de invasões e a presença de estranhos. Mas como a vigilância não será armada, eventuais abordagens serão feitas no sentido de informar que a propriedade é privada e não permite a entrada de terceiros, por exemplo.

Apesar da série de desafios que vem enfrentando desde o formalização de sua propriedade, Daniela garante que faria tudo novamente. Ela não se arrepende de nenhum esforço dispensado para a preservação, mas ela sinaliza que é preciso ações que valorizem quem dispensa uma parte dos seus bens para preservação do meio ambiente. “O lado romântico e poético da parte de conservar deve ser valorizado, só que é preciso estímulos para que as responsabilidades não virem um farto”, finaliza.

RPPN Toca da Paca
Local: Guatapará – São Paulo
Ano de criação: 2008
Área total: 187,3 hectares
Proprietária: Daniela de Azevedo Souza
Site: http://www.tocadapaca.com.br/

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